Ingrid Ortelbach

Em 1999 aconteceu algo extraordinário. Em Dharamsala, numa viagem pela Índia, caiu-me uma taça de som nas minhas mãos. Não, caiu diretamente no meu coração. Assim como quando se está apaixonada, todo o meu corpo ficou remexido.

Começou uma caminhada excitante. Conquistei algumas taças, umas grandes e outras pequenas, campainhas e outros objetos de metal. Para caber tudo na mochila deixei para trás toda a minha roupa na pensão e com muita felicidade carreguei comigo o meu “ouro” para a Alemanha. Em Dharamsala tinham-me dito que existe um livro sobre as taças. Esse livro comprei mais tarde após regressar da Índia, em Hannover, numa livraria. Era um livro da autoria de Peter Hess. Nesse livro estavam alguns contactos de telefone e e-mail. E aí veio o passo decisivo! Participei no primeiro congresso de som no ano de 2000. Nesse congresso participei num workshop “Viagem de som através do corpo” facilitado por Peter Hess. No final Peter Hess perguntou a todos como tinha sido, como se sentiram e eu sendo uma pessoa, na altura, tímida enchi-me de coragem e partilhei o meu testemunho: - “Eu vi-me de cima, eu era pequena e de cor cinzenta. Em cima de mim brilhava uma grande luz”. Peter olhou para mim e disse: - E agora vais crescer!

 As afirmações de Peter Hess resultam.

Em 2001 fiz a minha formação com a formadora Elisabeth Dierlich. Ela retirou de mim o poder do sentir, a subtileza.

Com os meus novos conhecimentos na bagagem regressei a Portugal em 2004, país onde vivera durante 30 anos. A massagem de som foi recebida em Portugal com muito interesse por parte dos portugueses. Viajei pelo país fora dando cursos de introdução e a notícia foi-se espalhando de boca a boca. Vinham pessoas de todas as áreas profissionais.

Nos primeiros anos tive a ajuda da Elisabeth Dierlich para dar os cursos de massagem de som. Depois mais tarde em 2004 comecei a dar as formações sozinha.

Em 2008 fundou-se a Academia Peter Hess Portugal e sou responsável pela a Academia juntamente com a minha filha Carla.



Carla Ortelbach

Participei em 2011, na Alemanha, num workshop facilitado por Andreas Rehloender sobre o Stress . Foi muito interessante verificar como todo o ambiente à nossa volta tem influência sobre o nosso estado físico, emocional, mental e espiritual. Tudo está interligado.

Neste workshop foi-nos apresentado um programa especial de medição, o emWave® PC e de um computador portátil que através dele é possível ver a cada momento as variações da pulsação e pressão sanguínea, como os pensamentos e os sentimentos influenciam a variabilidade da frequência cardíaca. É idêntico a um poligrafo. Sentei-me numa cadeira no centro da sala. Foram-me colocados alguns sensores. O meu parceiro colocou-me uma taça universal na mão direita e tocou. Fechei os olhos e ele foi tocando. Os meus pensamentos divagaram e tentei entregar-me ao som, à vibração da taça. Por vezes conseguia, outras vezes não. Ouvi, por breves instantes, ruídos vindos de fora, cadeiras a arrastar na sala ao lado da nossa. Ouvi vozes vindas de lá e portas a fechar. Voltou o silêncio, a taça continuava a soar. O meu pensamento concentrou-se nas pessoas que participavam no workshop. Senti-me observada e desconfortável, não gosto de ser o centro das atenções. Tentei disfarçar a minha ansiedade, o meu desconforto e tentei ter um comportamento como se estivesse relaxada, com os olhos fechados, com uma expressão serena e meditativa, achei que ficaria bem no processo. Afinal de contas as taças de som proporcionam um estado de relaxamento. No meio do meu "disfarce" senti uma certa irritação, queria que terminasse a demonstração. Queria abrir os olhos, mas achei que tendo a taça na mão e em vibração não seria a altura certa e esperei. Um último toque na taça e deixei o som fluir até ao fim, esperei que a vibração terminasse e abri os olhos. Todos os olhares estavam fixados em mim e no gráfico apresentado na tela. O gráfico é composto por colunas, uma vermelha que representa o nível de stress e outra verde que representa o nível do relaxamento. Virei-me e curiosa observei o gráfico. O resultado desiludiu-me, a coluna do stress, a vermelha, esteve quase sempre durante o processo, nos níveis mais altos e a coluna verde, do relaxamento, raramente se destacara. Quando ouvira os ruídos vindos da sala ao lado o meu nível de stress subiu um pouco, mas quando o meu pensamento se concentrou nas pessoas que me rodeavam o aumento do stress foi ainda mais acentuado. Nas poucas vezes que me abstraí de tudo o que estava à minha volta, quando me entregara mais ao som e à vibração, o nível do stress diminuíra e o nível de relaxamento aumentara, sentira relaxamento. Esta demonstração também foi feita a outros colegas, alguns deles com experiência e treino na meditação. Esses obtiveram resultados muito positivos, a coluna verde destacara-se quase sempre.

O estudo também foi apresentado com imagens, imagens de paisagens deslumbrantes, magnificas, e com imagens de cenários de guerra. No gráfico o resultado foi o esperado, a coluna vermelha aumentara quando eram postas as imagens dos cenários de guerra e a coluna verde aumentara quando eram colocadas as imagens bonitas, as paisagens lindas. Também com a música aconteceu o mesmo. A música mais calma mais suave ativara a coluna verde e a música com um ritmo mais forte mais acelerado ativara a coluna vermelha, portanto aumentara o nível de stress.

De facto, o ambiente que nos rodeia, os nossos pensamentos, tem muita influência em tudo o que fazemos. Neste caso, durante uma sessão de massagem de som, é muito importante estarmos num ambiente calmo e sereno. Significa também que tanto o que recebe a massagem de som como o praticante de massagem de som necessitam de um ambiente saudável. O foco no saudável, a entrega, o sentir, o estar no "aqui e agora" é muito importante. É importante sentir a vibração, sentir e escutar o som, sentir e escutar o próprio corpo. Não existe o ontem, não existe o amanhã, apenas existe a harmonia do som, a vibração agradável no corpo.

Foi muito importante ter participado neste workshop. Tornei-me numa praticante de massagem de som mais cuidadosa, mais atenta, mais atenta aos pormenores. Procuro criar um ambiente mais acolhedor, mais harmonioso e seguro para os meus clientes e para mim.



Sílvia Catarina Santos

Viver as Taças de som em Família. 

As Taças entraram na minha vida pelas mãos de Ingrid Ortelbach. Nesse dia, uma Taça de Som silenciou uma agitada plateia de alunos universitários que participavam num evento sob o título: Marketing Zen. De lá para cá, as mudanças que as Taças em mim operaram são inarráveis. Tenho vindo a aprender a trabalhar com as taças, mudei de profissão, alarguei horizontes e cresci. Cresci muito. Hoje é com muita alegria que as massagens de som fazem parte do meu dia-a-dia. Trabalho com miúdos e graúdos, numa constante partilha de som através das Taças Terapêuticas Peter Hess®.

No ano em que a minha filha estava a frequentar o 4º ano, perguntei-lhe como a podia ajudar a preparar-se para as provas e exames nacionais. Estas conversas para a ajudar a estar no seu melhor, sempre fizeram parte da nossa vivência. Dessa vez, a resposta foi uma surpresa… surgiu rápida e pronta: “- Mãe, faz-me uma massagem de som todas as manhãs!” Assim foi. De manhã, o despertar passou a ser diferente. Muito diferente. O som e as suaves vibrações da Taça substituíram a minha voz no acordar. A azáfama matinal e o “despachar” para sair de casa foram substituídos por novas e harmoniosas rotinas. Passaram-se três semanas e na reunião com a professora veio a confirmação. A professora perguntou o que tinha mudado na rotina da aluna. A pequena estava mais focada e concentrada. Mais empenhada e trabalhadora. Finalmente estava a conseguir escrever de forma mais fluida, de acordo com o que era a sua expressão oral. Passo a citar: “O que mudou em casa nestas duas últimas semanas?...” Como mãe, a alegria que senti por ver a minha filha a revelar o seu melhor é indescritível! Nessas provas, a menina passou de uma boa aluna para uma aluna de excelência. Afinal é simples, muito simples: Despertar com uma breve massagem de som pela manhã!



Ana Maria Almeida

O impacto que a terapia de som teve na minha vida. Inicialmente a vibração das taças chamava por mim. Ouvia o som constantemente o que me fez ir de encontro a elas. Fazer as formações foi entender um potencial maior e incrível. As taças tocam a alma. As sensações são muitas, desde uma alegria e paz imensa, a mexer com traumas e chorar. São algo que toca a minha alma profundamente. Gratidão!



Guida Lázaro

Tive o privilégio de ser uma das primeiras pessoas a conhecer o fascínio da Ingrid com as taças de som. Desculpem os que imaginam uma “revelação” mais solene ou transcendental, mas o momento foi de risada total, contagiante. Eu explico: imagine-se numa viagem de sonho à Índia, à terra de exílio do Dalai Lama, em Dharamsala, nos Himalaias. Isso mesmo, quer conhecer a cultura local, visitar mosteiros, respirar o ar das montanhas. Ora nada disso. As chuvadas torrenciais hora a hora e a ameaça de cães raivosos pelas redondezas inibiam qualquer tentativa de escape por caminhos menos conhecidos. O que restava para um grupo de amigos era pouco mais do que saborear a gastronomia local, ler, fazer compras, passar o tempo e fugir dos cães. À espera de dias melhores, chegou um ponto em que já todos tínhamos atividades privadas. Eu tinha aulas de cozinha tibetana, uns iam para a esplanada do irmão do Richard Gere – quem sabe não aparecia; e apareceu! - e outros inventavam coisas para fazer ou iam comprar prendas para os que estavam deste lado do mundo. Certo fim de tarde, e depois de umas destas excursões pouco aventureiras, a Ingrid chegou ao quarto de hotel com uma taça. Muito séria, dizia que tinha sons maravilhosos, mas o nosso tédio viu nesse curioso objecto outras aplicações. Fizemos trinta por uma linha com a taça e ainda hoje me riu quando vejo as fotos com a taça enfiada na cabeça de A e de B. Ora bem, a certa altura lá voltámos. Viemos para Portugal e a Ingrid para a Alemanha... e pelos visto ainda com as “taças na cabeça”. Aquilo não passou. De facto, a Índia é uma terra de experiências extremas. Nada corre como o previsto e não são raras as vezes em que perguntamos, afinal o que fomos ali fazer?! Mas o pior chega quando voltamos. Só aí nos apercebemos realmente da intensidade da vivência e precisamos de fazer umas “férias” logo após o regresso. Num destes dias de rescaldo falei com a Ingrid ao telefone. E então que tal? – disse eu. E não me esqueço da resposta: “não consigo tirar a Índia da cabeça e as taças também não”. Nesse “transe” pós-Índia, a Ingrid só se sentia bem a encontrar cumplicidades com essa vivência. É perfeitamente normal que tenha vestido a casa de saris e depois que tenha ficado com um brilho nos olhos quando soube da existência de uma organização dedicada às taças tibetanas, não longe da sua casa na Alemanha. E pronto a partir daqui é a história que todos conhecem: os workshops, a formação, a certificação no Instituto Peter Hess e a criação da Academia Peter Hess em Portugal.

A minha primeira experiência com as taças já não tem tanta piada, mas não deixa de ser especial. Encontrei-as – anos antes deste episódio – no Nepal. A memória do momento valeu muito mais do que muitas fotografias que tenho dessa viagem. Lembro-me que ouvi o som e fiquei encantada. Literalmente perdi a noção do tempo e do espaço. Foi um momento e hoje é uma excelente memória.

Resumindo: todo o contacto inicial com as taças é especial. Mas a história da Ingrid é a melhor. Nunca pensei que uma simples brincadeira fosse dar nisto. As taças continuam na cabeça e recomendam-se!



Daniel Mas

Conheci a Massagem de Som da mão e o coração da Ingrid em 2012, no Brasil.

Durante a formação pude perceber o quanto de benefício poderia trazer esta prática aos seres. Durante os meses seguintes fiz vários atendimentos com amigos. Ouvi, observei e contemplei os profundos momentos de partilha que tivemos juntos. Fiquei um tempo para repousar na calma e contemplar todo o que surgiu nesse período de prática, sem atendimentos, relendo os manuais, fazendo os diagramas de movimentos, ouvindo e sentindo o som. Meditei, estudei, recitei mantras e pujas, fiz retiros. Entrei em ressonância com o som e a vibração das Taças de som. Levei as taças aos retiros budistas. Continuei fazendo tratamentos, visitei lugares sagrados espirituais e lugares na natureza. Caminhei, nadei e mergulhei com as Taças nas águas puras da Chapada. Ouvi o som com o coração, com meu corpo, mente e energia. Meus pensamentos, sentimentos e vibração fluíram como um rio de água doce numa dança. Uma nova abordagem na alegria de cuidar dos seres floresceu em meu coração. Motivação, atenção plena, intenção, corpo, mente e energia em equilíbrio, os 5 lungs em harmonia: éter, ar, fogo, água e terra. A meditação do Amor Universal: Metabavana, junto ao convite para com as taças de trazer seu som foram os ingredientes no cuidar dos seres. Amorosidade, generosidade, compaixão, equanimidade e alegria em benefício de todos os seres. Atendimentos individuais, grávidas de risco, concertos meditativos, rodas de cura, atividades de Arteterapia, trabalhos voluntários em hospitais com crianças com câncer, atendimentos gratuitos em favelas são alguns dos lugares onde habito com as taças. Vejo resultados maravilhosos, na restauração da saúde, na superação de obstáculos, no despertar para uma melhor consciência. No brilho nos olhos das pessoas. Sou imensamente agradecido a conexão com as Taças de Som Peter Hess. As crianças são únicas descrevendo esse mágico mundo interno: "tio, sinto muito amor por você e por todos, me sinto como se estivesse no espaço e do meu corpo saírem milhares de estrelas cadentes de luz branca em todas as direções." Depois, ele me abraçou. Foi muito lindo, emocionante. Depoimento de uma criança de 7 anos. Sempre levo uma taça de som em meus braços, nunca se sabe quem pode precisar dela. Fui iniciado ao Buda da Medicina pela S.S. Gyalwang Drukpa: TAYATA OM BEKANDZE BEKANDZE MAHA BEKANDZE RANDZE SAMUNGATE SOHA.

Continuo praticando, contemplando em silêncio, aprendendo, compartilhando e agindo no mundo com a aspiração de que todos os seres sejam saudáveis e felizes. Continuo pesquisando sobre silencio, som, vibração, ressonância e amorosidade: junto a arte, o canto e a dança.

Agradeço aos nossos ancestrais, ao Peter Hess pela conexão, roteiro e pesquisa. A Ingrid pela intuição e acreditar em mim e aos meus mestres pela imensa paciência, compaixão e sabedoria. Desejo a todos alegria, amorosidade e lucidez em nossos pensamentos, sentimentos e ações. Alegria!!!



Bárbara Villalobos

Há vários anos que tinha como propósito fazer o curso de taças de som, mas por vários motivos nunca se tinha tido a oportunidade de fazê-lo até que se proporcionou . Foi ao encontro de todas as minhas expectativas e mais além. Na minha ainda pouca experiência enquanto praticante de massagem de som posso não obstante atestar o bem-estar produzido em quem me procura. Relatos de enorme relaxamento, bem-estar e adjectivos como “maravilhoso” são constantemente usados, o som é descrito como agradável e um sorriso é muitas vezes o cumprimento ao despertar. Do lado de cá, enquanto massagista, sinto-me igualmente a ressoar com as taças e com o som, e a sensação no fim é sempre muito agradável e gratificante também para mim: quem dá a massagem também entra em vibração com as taças e é um trabalho que se aproxima muito de uma prática meditativa. Aliás, a nível pessoal, uso as taças como ferramenta que introduz e conclui as minhas práticas meditativas ajudando a proporcionar e manter um ambiente de calma e paz que se prolonga depois no quotidiano e torna o dia mais centrado. O som tranquilizante das taças ajuda na escuta de nós mesmos e potencia também a nossa voz interior. Estou rendida.




Célia da Silva Ferreira

Maria das Leiras, a pastora de Póvoa das Leiras.


Quando vi a Dona Maria das Leiras pela primeira vez, no alto da Serra da Gralheira (S. Pedro do Sul), estava sentada em cima de um enorme tufo de carqueja, rodeada por cerca de 90 ovelhas e cabras, que comiam desenfreadamente carqueja terna, tojos e fetos. Estava um dia quente e seco e apenas corria uma leve brisa. Eu tinha ido fazer um passeio pelo monte, com a minha amiga Ingrid, e já tínhamos calcorreado para cima de uns bons 10 km de um percurso pedestre com o nome de “Caminho das Bétulas”, quando deparamos com dezenas de cabeças de cabras e ovelhas a olharem curiosas para nós, por entre arbustos e pedras, observando-nos enquanto iam remoendo a sua comida. Ali estava esta senhora de 68 anos, de olhos claros, vestida toda de preto e de cajado na mão, com o ar mais descontraído do mundo, no meio daquela serra, onde imperava o silêncio, apenas interrompido, aqui e acolá, pelo som de água a correr livremente por entre as pedras, o cantar das andorinhas que por ali passavam e o som incessante de bocas a roer tojos e fetos. Era um quadro irresistível, e de imediato me dirigi a ela. Já me observava, atentamente, à medida que me aproximava. Disse-lhe boa tarde e logo lhe perguntei se ela gostava de estar a guardar as suas cabras e ovelhas. O rosto dela iluminou-se com um enorme e sincero sorriso: “Ó menina, gosto sim, é muito melhor do que andar a cavar terra…!” Conversamos durante algum tempo, pedi-lhe para tirar umas fotografias, fiz-lhe algumas perguntas um tanto ou quanto idiotas, típicas de quem não percebe nada da vida na serra, quanto mais de cabras, mas ela a tudo respondeu com a sua infinita paciência, afinal ela estava habituada a ser abordada por estranhos curiosos… Por fim lá me despedi a muito custo. No entanto, de volta ao parque de campismo, fiquei a matutar na ideia de passar um dia na serra com aquela senhora. Aquela sensação de liberdade que emanava dela atingiu-me com uma força tal que também eu queria um pouco dessa sensação. Seria uma experiência única para mim, e já agora porque não levar uma taça tibetana para ver como ela reagiria? Será que ela ia gostar? Ou teria ela algum receio e pensaria que eu era meio maluca? Bem, logo se veria. Após várias peripécias, perguntando aqui e ali por uma senhora chamada Maria, vestida de preto, que era pastora, e de enfrentar alguns locais que ficavam curiosos com as minhas perguntas, tentando perceber porque é que eu queria falar com tal pessoa, lá consegui contactar a D. Maria das Leiras. Disse-lhe que gostaria de passar um dia com ela na serra, ao que ela respondeu, dando uma gargalhada ruidosa: “Tá bem menina, se você quer assim tanto… e leve lá a sua tacinha também…!” e assim ficou combinado o encontro para daí a dois dias. No dia marcado, às 11.00 da manhã, de cajado na mão, lanche nas sacolas, seguidas de perto pelo Malhadinho, cão pastor fiel e já entradote na idade, lá partimos para a serra, embrenhando-nos no monte, junto com uma massa formada por cabeças e pernas peludas que se agitavam e competiam entre si para conseguir os melhores petiscos vegetarianos. Quando paramos para comer a primeira “bucha”, debaixo de uma bétula frondosa, que parecia guardar de forma maternal, uma fonte de água fresca e transparente, aquilo é que foi ver cabras e ovelhas a aproximarem-se de nós, atropelando-se umas às outras, ou não fossem elas gulosas… na esperança de saborear um naco de broa ou pedaço de bolo caseiro ensopado. Foi nesta altura que puxei pela taça universal. A D. Maria olhou para a taça, deu uma gargalhada nervosa, os ombros fizeram um movimento tipo “então isto é que é a famosa taça…”, e sem mais demoras pegou na taça, e com um largo sorriso, testou-lhe o peso, dizendo: “Que linda! E o peso que ela tem…!” Então dei-lhe a baguete, para ver o que ela fazia, e sem perder tempo começou a bater do lado de dentro para fora. Sempre a rir, disse: “Que som bonito!”. Parecia uma criança a brincar com o seu novo brinquedo! Toda ela era sorrisos. Devo dizer que é sempre interessante observar como as pessoas, que nunca tiveram uma taça na mão, reagem. Parece haver sempre a tendência de bater com a baguete de dentro para fora… Coloquei-lhe a taça na mão direita, bati suavemente de lado com a baguete e perguntei o que ela sentia, ao que respondeu: “Tenho a mão a tremer, fica o som na mão”. E na esquerda o que sente? “Igual à direita, é igual” disse ela prontamente sem rodeios. Depois, e porque ela se queixava de algumas dores nessa zona, coloquei a taça num e noutro joelho. Como estávamos ao sol a taça aquecera bastante e ela observou: “A taça ao sol aqueceu mesmo, sinto a taça maciazinha na perna, sinto uma coisa a caminhar dentro do corpo”. E voltou a sorrir. Eu estava maravilhada com a sua abertura para experimentar algo assim. A D. Maria então voltou a pegar na taça fazendo-a saltar de uma mão para a outra, e voltou atrás no tempo, dizendo com um sorriso maroto mas algo nostálgico: “É uma tigela… antigamente tínhamos malgas de papas e esta era boa para isso…! É jeitosinha!” Depois aproveitei para experienciar no cão Malhadinho. Não gostou e virou-me as costas. Prossegui com as ovelhas. Estas ignoram-me. Aliás a D. Maria gostava de dizer que as ovelhas eram umas tontas… “Sabe? Com o calor as ovelhas andam sempre de focinho no chão, parece que andam à procura de agulhas! Por isso não vêem nada…” Experimentei com as cabras tendo conseguido alguma reacção, mas muito pouca… Antes de voltar para junto da D. Maria enchi, até meio, a taça com água, e tentei explicar de forma simples que o nosso corpo tinha uma grande quantidade de água e que o som funciona dentro de nós do mesmo modo que quando se atira uma pedrinha para o centro de uma lagoa e esta provoca pequenas ondas. Ela olhava para mim com muita atenção a tentar perceber o que eu estava para ali a dizer. Bati então ligeiramente na taça fazendo com que a água formasse as tais pequenas ondinhas. Ela olhou para dentro da taça, quase enfiando lá o seu nariz, e exclamou espantada: “Isto é a água a ferver…!” Bati na taça com mais força e ela gritou excitada: “Isso é a água mesmo a ferver… engraçado… está mesmo a ferver…!” E riu-se a bom rir, espantada como a água assim “fervia” sem lume! Mais tarde soube pela sua neta que a D. Maria não lhe falou em mais nada senão na “taça que fervia água sem lume…!”. Achei a sua simplicidade encantadora. Ali estava esta senhora, que toda a vida guardara cabras e ovelhas. Que trabalhava a terra sem parar, pois, como me disse uma senhora de uma das aldeias vizinhas: “Sabe menina, aqui a água nunca para…!” E, no entanto, tinha o tempo e o espírito aberto para experimentar algo diferente e desconhecido. Passei uma semana a conviver com as gentes das aldeias ali à volta. Encontrei pessoas com uma visão da vida espantosa. Aprendi muito com a Dona Maria das Leiras, e gostava de terminar com uma frase que ela me disse a propósito de não ter medo de experimentar coisas novas: “Sabe, menina? As crianças não nascem com medo, as pessoas é que lhes põem o medo…!”